Espaço para troca de ideias sobre as Figurinhas Zequinha

O palhaço Zequinha foi desenhado pela primeira vez no final da década de 20 do século passado, entre 1928 e 1929. Sua criação tinha um objetivo claro: aumentar as vendas de balas produzidas pelos irmãos Sobania. As crianças comprariam balas e levariam uma figurinha com um simpático (não por isso risonho) palhaço. Nelas, o personagem aparecia nas mais variadas atividades, emoções e lugares: Zequinha Nervoso (n.49); Zequinha Selvagem (n.50); Zequinha no Corcovado (n.148); Zequinha No Chops (n.68); Zequinha Gangster (n.177).

1 - n 49 nervoso     2 - n 50 selvagem     3 - n 177 gangster

Bastava completar a coleção, incluindo a difícil figurinha carimbada, e elas podiam ser trocadas por brinquedos. Essa ideia foi pioneira em Curitiba. Especula-se que Francisco Sobania, um dos donos do negócio, tenha ido para São Paulo fazer um curso de bala de goma e chocolate, e lá viu alguma coleção de figurinha que lhe deu a ideia.

Em sua versão original, Zequinha é um palhaço com ar sério. Magro, calvo, sem nariz vermelho, maquiagem branca na boca, quase sempre aparece de sapato pontudo e gravata borboleta.

Zequinha emplacou com as crianças. As primeiras 30 figurinhas logo foram para 50, 100 e terminaram em 200, vendidas por cerca de 40 anos, até 1967.

imagem cartaz zequinha

O DESENHO

Para dar vida a nova ideia, os Irmãos Sobania procuraram a Impressora Paranaense (mais moderna gráfica da capital). Nela, além da impressão, era possível também encomendar os desenhos à equipe contratada de litógrafos-desenhistas (todos alemães ou descendentes). Ao que parece, no início os desenhos eram feitos apenas por um funcionário e então passado a aprovação do desenhista chefe (Alberto Thiele) e dos clientes. Mas, como a demanda do número de figurinhas aumentou em mais de 5 vezes, é de se pensar que outros funcionários foram envolvidos na produção, agora com mais liberdade:

“Se não foi assim como explicar a trágica série das figurinhas de 130 a 134 (Zequinha Viúvo, Machucado, Perneta, Raquítico e Suicidando-se?) Estas tragédias um tanto inusitadas para um álbum de figurinhas populares teriam sido indicadas pelo fabricante, ou o anônimo desenhista colocou seus problemas pessoais nos desenhos?”
(Valencio Xavier, 1974)

Por anos o real criador do Zequinha e seus desenhistas passaram por anônimos, até Paulo Carlos Rohrbach, funcionário da Impressora Paranaense de 1939 a 1953, ser descoberto. Paulo credita e ele a criação das figurinhas do número 51 a 200 e a Alberto Thiele a criação do personagem. Além dos desenhos de Zequinha, Paulo também, desenhou o rótulo da Gasosa Cini e mais de 1000 desenhos de animais para as Pastilhas Zoológicas.

Não se sabe ao certo se o Zequinha foi inspirado em alguma figurinha já existente (como as do Palhaço Piolin, que acompanhavam balas em São Paulo na época da criação de Zequinha), ou em algum palhaço de circo que circulava pela região. Para Paulo Carlos Rohrbach, a primeira versão é a verdadeira.

imagem 3 n 151 no microfone     imagem 3 piolin

Durante seus anos de existência (1929 – 1967), a patente de Zequinha passou das mãos dos Irmãos Sobania para os Irmãos Franceschi (década de 40), para a firma E. J. Gabardo e Massocheto (1955) e então para Zigmundo Zavadzki em 1967. Mas pouquíssimas alterações foram feitas nos desenhos, entre elas, nas suas últimas versões, o palhaço ficou mais sorridente, artimanha para retomar sua popularidade em queda.

FABRICAÇÃO E VENDA

As Balas Zequinha eram de fabricação barata, com açúcar e essência de frutas. Seu formato era quadrado e eram embaladas à mão pelas funcionárias da fábrica. Em época de aumento da produção, até os filhos da família entravam na linha de produção para embalar. As balas saiam da fábrica em latas de 100 quilos. Conta-se que a cada lata havia apenas uma figurinha do nº 200, a figurinha difícil. Por dia, eram produzidos 1.200 quilos de balas, que depois eram vendidas 10 por 1 cruzeiro.

imagem 4 n 200 distribuindo

FIGURINHAS, ENCONTROS E JOGOS

As figurinhas, produzidas para embrulhar as balas de discutível qualidade, não tinham álbum e nem face adesiva. Não era de interesse das crianças colá-las. Elas ficavam soltas e serviam de motivo para encontros, para trocas, para o jogo do bafo e do tique. Nos jogos e trocas 10 figurinhas comuns valiam por uma difícil. Circulavam livre entre o empinar pipa, jogar pião ou “bola búrico” e tudo mais.
No lugar do álbum, as próprias crianças criavam uma carteirinha especial: dois pedaços de papelão cortados sob medida e presos um ao outro por 3 tiras de pano. Dessa forma, as figurinhas ficavam guardadas sem amassar, e passavam de um lado ao outro da carteirinha como em um truque de mágica.

imagem 5 carteira zequinha

LINGUAJAR, COSTUMES E UMA OBRA

Observar as figurinhas Zequinha é perceber como era a Curitiba e o olhar do curitibano na primeira metade do século XX, e ao mesmo tempo desvendar um personagem, com costumes locais atemporais:

“A figurinha nº 8 (Zequinha Passeando) mostra que companhia ideal para um passeio em Curitiba é um guarda-chuva, e o resultado é ficar Tossindo (112) com a gripe resultante do passeio. E a de número 30 (Medroso) mostra Zequinha fugindo de um sapo, numa bem humorada homenagem ao animal mais abundante nesta úmida cidade.”
(Valencio Xavier, 1974)

imagem 6 1 - n 8 passeiando     imagem 6 2 - n 112 tossindo     imagem 6 3 - n 30 medroso

Zequinha aparece em profissões e ações que sumiram, deixaram de ser populares ou mudaram de nome na Curitiba atual: Salchicheiro (15); Datilografo (76); no Golfinho, como era denominado o jogo de golf, (88); Trocando Colarinho (51); Basketeiro (192); Gol-Kiper (47):

“Zequinha (…) pastoreava seus carneiros nos campos que ainda existiam em volta da cidade (Pastor, 7), vendia peixe (Peixeiro, 9) em dois cestos que presos a uma vara sobre seus ombros, serviam de balança. (…) era Ferreiro (104) quando ainda haviam cavalos para calçar. (…) Quando queria emprego seguro, ia ser Motorneiro (162) no alaranjado bonde aberto que fazia ponto final na Praça Tiradentes.”
(Valencio Xavier, 1974)

imagem 7 1 - n 7 pastor     imagem 7 2 - n 9 peixeiro     imagem 7 3 - n 162 motorneiro

O personagem tomou partido (por vezes contraditório), arregaçou as mangas, e foi à luta, como muitos na primeira metade tumultuada do século XX: Anarchista (23); Lampeão (83); Canhoneiro (153); Trincheira (180); Revolução (39); Guerra (116).

imagem 8 1 - n 23 anarchista     imagem 8 2 - n 83 lampeao     imagem 8 3 - n 180 na trincheira     imagem 8 4 - n 116 na guerra

As lutas livres e de boxe na época eram realizadas nos circos, e são mencionadas em várias figurinhas: Boxeur (34); Lutador (14); Vencedor (96); Lutando (124). Será que era um costume popular na época ou será que era o esporte preferido do desenhista? O futebol – esporte nacional mais popular atualmente – ganhou apenas duas figurinhas: Esportista (21) com Zequinha chutando uma bola; e Gol Kiper (47) com o palhaço de goleiro.

imagem 9 1 - n 21 esportista     imagem 9 2 - n 47 gol-kiper    imagem 9 3 - n 96 vencedor

Zequinha foi Pirata (28), que na época significava namorador, ficou Noivo (67), Casado ( 117), era Satisfeito (183), e acabou Viúvo (130).

imagem 10 1 - n 28 pirata     imagem 10 2 - n 67 noivo    imagem 10 3 - n 117 casado     imagem 10 4 - n 183 satisfeito     imagem 10 5 - n 130 viuvo

Mas nem só de alegrias vivia o palhaço:

“Talvez por saudade da mulher é que Zequinha andava sempre Embriago (18), caído ao chão, agarrado a um poste, garrafa de cachaça ao lado. Sem dinheiro para sustentar o vício, Zequinha foi ser Ladrão (157), Gatuno (53), arrombador de cofres, quando ainda não se tinha o costume de assaltar os bancos em dia claro (…) foi Castigado (171), preso por correntes e um rolo compressor e, finalmente Condenado (73)”.
(Valencio Xavier, 1974)

imagem 11 1 - n 18 embriagado     imagem 11 2 - n 157 ladrão     imagem 11 3 - n 53 gatuno     imagem 11 4 - n 171 castigado     imagem 11 5 - n 73 condenado

E tudo ainda podia ficar pior. O palhaço sofreu, acabou Afogando-se (123), Raquítico (133) e Doente (103). Virou Mendigo (136); Perneta (132) e terminou uma das fases da sua vida Suicidando-se (134) ou para quem preferir Enforcado (137).

imagem 12 1 - n 123 afogando-se     imagem 12 2 - n 133 raquitico     imagem 12 3 - n 136 mendigo     imagem 12 4 - n 134 suicidando-se     imagem 12 5 - n 137 enforcado

Mas o fim não era certo para Zequinha. Já na sequencia lá estava ele Arrumando-se (138), para quem sabe, sair de Excursão (144). Pegar um avião e Voando (2) parar No Rio (81) onde tirou uma foto com Getúlio, ou ir atrás de aventura Na África (155), e Na China (191) . Caso as coisas pela terra estivessem monotonas, e Zequinha ficasse Aborrecido (172), podia contar com um Balão (150) e arriscar chegar Na Lua (127).

imagem 13 1 - n 138 arrumando-se     imagem 13 2 - n 144 excursão     imagem 13 3 - n 2 voando     imagem 13 4 - n 81 no rio     imagem 13 5 - n 155 na africa

imagem 13 6 - n 191 na china     imagem 13 7 - n 172 aborrecido     imagem 13 8 - n 150 no balão     imagem 13 9 - n 127 na lua

Para o escritor VaLêncio Xavier, o Zequinha da versão de 1928/29 é um anti-herói, o Macunaíma Curitibano. Ele passa por situações humanas, que representam o dia-a-dia de pessoas, em ações contraditórias. Vai de herói a vilão Lampião, de perdedor a vencedor, ladrão e suicida, de lixeiro a médico. No seu conjunto pode ser visto como uma obra aberta da literatura por imagens.

imagem 14 1 - n 6 lixeiro     imagem 14 2 - n 82 medico

A VOLTA DE ZEQUINHA – 1979

A versão do Zequinha criada em 1929, permaneceu no comercio até 1967, passando por poucas alterações. Doze anos após, em 1979, ele retorna. Agora diferente, mais gordo, sempre sorridente e “simpaticão”. Seu objetivo não é mais embrulhar e ajudar nas vendas de balas. Agora ele é garoto propaganda de campanha do governo.

imagem 15 ICM.Capa

O governador do Paraná, Ney Braga, lançou uma campanha para aumento da arrecadação do ICM – Zequinha o ICM das crianças. Nela as figurinhas e álbuns, são trocados por notas fiscais. É um estímulo para a população exigir nota fiscal nas compras e serviços, e garantir mais imposto pago ao governo. Quem tinha o álbum completo se inscrevia para concorrer a vários prêmios, o 1º lugar era uma casa própria no valor de 700 mil cruzeiros.
Novamente, Zequinha é sucesso, não só entre as crianças, mas também entre os adultos, que exigem as notas fiscais e acham tempo para enfrentar longas filas para trocá-las. Até abril de 1980, já havia sido distribuído pelo estado 766 mil álbuns e 40 mil prêmios.
O palhaço passa a ser criação de uma agência de propaganda (P. A. Z.), e somente desempenha atividades politicamente corretas. Zequinha visita pontos turísticos do estado, come comidas típicas, visita o governador, acorda cedo, atravessa a rua na faixa.

imagem 16  4 - n 8 acordando cedo     imagem 16  5 - n 109 atravessando na faixa     imagem 16 1 - n 120 na serra de paranaguá     imagem 16 2 - n 100 comendo barreado     imagem 16 3 - n 37 no governador

O antigo Zequinha, de 1929, era personagem representativo da cultura popular curitibana, reflexo de seu povo nas mais variadas situações, e motivo para juntar crianças em torno de brincadeiras. Se antes os pequenos corriam até vendas e mercearias atrás das balas Zequinha, em sua nova versão, adultos vão às compras e exigem suas notas ficais para vê-las virarem, após longas filas, figurinhas de um palhaço pomposo.
O personagem presente no imaginário de muitos curitibanos, um símbolo folclórico, ganha nova roupagem a serviço publicitário do governo. Essa ação é polêmica, há aqueles que acham vantagem no sucesso dessa campanha educativa, e aqueles, como Valencio Xavier, que reclamam pela descaracterização de um símbolo da cultura popular curitibana. Por fim, o conflito em torno de Zequinha, acaba em conflito jurídico. Zigmundo Zavadzki (que havia comprado o direito da marca em 1967), ao ver a campanha, registrou o Zequinha como sua criação e entrou com processo para que o governo lhe pagasse indenização. Essa ação durou anos, com resultado a favor do acusado, e inúmeras recorrências da suposta vítima.
Ainda na década de 80, em 1986, a J. J. Promoções, de Jeferson Zavadski e João Iensen, lançam as figurinhas Zequinha em pacotes que acompanham doces. Porém sem muito sucesso, o palhaço, dessa vez, saiu do comercio rapidinho.

FONTES:

  • CHAIN, Ali. Zequinha arenista made in Rio. Correio de Notícias, Curitiba, 05 de nov. de 1979.
  • Clube do Zequinha. Diário do Paraná, Curitiba, 02 de nov. de 1979.
  • Engajamento de Zequinha em questão. Correio de Notícias, Curitiba, nov. de 1979. Comunicação/Propaganda.
  • GUETHS, Maigue. Bala Zequinha: Mania que entrou para a história. Folha de Londrina, Curitiba, 04 de jul. de 2007.
  • MARTINS, Joseane. “Pai” de Zequinha volta a desenhar na pedra. O Estado do Paraná, Curitiba, 12 de nov. de 1995. Almanaque.
  • TEODOROVICZ, José Carlos. Balas Zequinha, Figurinhas do Zequinha e sua origem: Piolin, o “Maior Palhaço do Mundo”. Curitiba, 21 de junho de 2011. Disponível em: http://www.jcteo.com/2011/06/balas-zequinha-figurinhas-do-zequinha-e_21.html.
  • XAVIER, Valencio. Desembrulhando as balas Zequinha. Bolhetim Informativo, Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba, n.1, agosto/1974.XAVIER, Valencio. Figurinhas: ‘Zequinha’ é romance contado em balas. O Estado de São Paulo, São Paulo, 20 de jul. de 1996. Caderno 2, p. D7.
  • Zequinha, um personagem querido mas sem história. Gazeta do Povo, Curitiba, 26 de set. de 1993.
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